Já eram vinte e duas horas. Pegou o casaco de linho. Haviam comprado juntos. Olhava para o casaco e tentava recordar os sentimentos que uma vez existiram. Olhava para o casaco e se perdia em um vazio existencial e raso. Colocou o casaco e sabia que frio não mais seria um problema. Pegou suas chaves. Jogou-as levemente para cima e as pegou no ar, cerrando o punho. Caminhou até a porta e a abriu. Lá fora o outono mostrava sua presença através do vento frio e constante.
Saiu, olhou para trás. Viu a porta de madeira, pintada de branco, com sua maçaneta dourada já
gasta. Olhou para a maçaneta e tentou relembrar sentimentos que lhe sobrepujavam a cada vez que a tocava, girando e re-inaugurando seu mundo a dois. Nada... Caminhou para o passeio e olhou para a casa. Tentou reviver como sentimentos lhe inundavam a cada vez que via sua casa ao longe. Mesmo de noite era bela, com seus dois andares e pintura branca. Só o vento frio lhe tocava ao ouvido. Caminhou até a porta e a trancou.
Ganhou a rua e caminhou até o carro. Apertou o botão do alarme e ele respondeu com rapidez, como se já esperasse que seria chamado. Abriu a porta e a mistura de perfumes lhe inundou o olfato. Memórias? Só de dificuldades recentes, nada bom. Sentou dentro de seu carro, sentiu frio. Um frio que vinha de dentro para fora. Fechou o casaco. Ligou o carro. Acendeu o farol.
O barulho do pneu contra o concreto e depois com o asfalto, se juntou ao barulho do vento que perpassava tudo. Tentou recordar como era viver só. Lembrou-se.
Parou o carro na porta de casa e ficou admirando a casa, recordando como era bom deixar a solidão de lado por alguém tão especial.