Uma sexta-feira, que, para milhares de pessoas, deveria ser esquecida, mas, em se tratando do trânsito de Belo Horizonte, principalmente no Anel Rodoviário, isso é impossível. Um acidente sem vítimas, na manhã de ontem, numa das pistas da perigosa e conturbada via, na altura do Bairro Buritis, na Região Oeste, atrasou a vida de pelo menos 50 mil pessoas, segundo estimativa da BHTrans. Como já ocorreu outras vezes e, se não houver medidas drásticas urgentes, continuará acontecendo, elas ficaram retidas no engarrafamento de 15 quilômetros por mais de cinco horas.
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Nenhuma destas pessoas é o frango...
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Um caminhão-caçamba, com 22 toneladas de minério de ferro, que trafegava no sentido Rio-Vitória, subiu na mureta de concreto central, depois de atingir a traseira de uma carreta, e se arrastou por vários metros, derrubando três postes de iluminação pública. O tanque de combustível estourou e derramou 300 litros de óleo diesel na pista, que ficou escorregadia e precisou ser interditada por mais de cinco horas. Foram necessários dois caminhões de serragem e ajuda de um trator para espalhar o material sobre o óleo. O asfalto ficou intransitável até mesmo para nossa estrela, o frango.
O frango, na segunda-feira, percebera a diferente movimentação da semana. As pessoas mudaram seu tratamento na casa em que vivia, sua alimentação passou de restos de alimentação para ração tipo B. Muito melhor, embora não lhe agradasse o sabor milho-verde da mesma. Finalmente a vida havia melhorado! Após seus seis primeiros meses de vida, já começara a tomar um corpo, coxas roliças, musculatura bem desenvolvida, peito "sarado"...
Enfim, um frango adulto.
Na quinta-feira o frango, observou mudanças ainda mais bruscas na casa. A princípio aquilo poderia não significar nada. Mas o frango era uma ave experiente (seis meses, ora bolas!). Desde que perdera sua mãe, que o céu a receba bem, havia ficado ligado naqueles objetos cortantes e pontiagudos que os humanos manipulavam.
Toda vez que eles começavam a amolar aquele... negócio, cenas da morte de sua mãe vinham a cabeça e uma revolta... Ela poderia ser uma galinha, mas ainda assim era sua mãe.
O frango então resolveu pensar em alguma solução para seu problema. Na sexta-feira decidiu que iria fugir. Era só esperar o suficiente para que abrissem a porta para trocar a sua água. Dali, do galinheiro, ganharia a liberdade. Dali iria para o mundo.
Na sexta-feira pela manhã, os humanos que cuidavam dele, moradores de um barraco simples a margem do anel rodoviário, abriram a porta do galinheiro para trocar a água e servir ração. Oportunidade nesta vida não vem em pacotes com "pague dois e leve três". Aproveitou-a.
Voando por cima da cabeça do seu algoz, correu. Com o auxílio das batidas de sua asa pulou a cerca do terreno e ganhou a margem da rodovia.
Algumas pessoas poderiam perguntar o por quê do frango cruzar a rodovia: Ele realmente precisava chegar do outro lado.

Por sua sorte o trânsito estava parado e ele conseguiu atravessar com facilidade. Aliás, ao alcançar a segunda pista a liberdade estava quase garantida, mas como vida de frango é sempre difícil, estava lá uma grande poça de óleo. Poça de óleo e pé de frango são duas texturas que se repelem e aí, escorregar é uma realidade. A ave não conseguiu se equilibrar e, depois de vários escorregões, foi capturada por dois rapazes, que esperavam o trânsito ser liberado, e acabaram garantindo o almoço.
Texto escrito a partir de reportagem do Estado de Minas de Sexta (07-11-2008)