domingo, 23 de novembro de 2008

Mineiridades, 3

Achei tão interessante um artigo chamado mineiridades, que tomei a liberdade de publicá-lo no blog.

Boa leitura.

MINEIRIDADES
História de fios entrelaçados
Herdada de colonizadores portugueses, a tecelagem é objeto de paixão de mulheres do Campo das Vertentes, região que se tornou referência da arte feita em teares
Gustavo Werneck, enviado especial

Resende Costa – Os fios da vida e do trabalho se entrelaçam, passam pelas tramas da arte, ganham a forma da beleza e o arremate do mais puro jeito mineiro. Com paciência e muita energia, as tecelãs de Resende Costa, na Região do Campo das Vertentes, a 180 quilômetros de Belo Horizonte, têm nas mãos um ofício que é o cartão de visita da cidade. Há mais de 200 anos, com seus teares de madeira, objetos de sustento e paixão, elas transformam as linhas em colchas, tapetes, almofadas, caminhos-de-mesa e outros produtos coloridos, que encantam pela composição das cores e maciez da textura. 

A história da tecelagem em Resende Costa, que se tornou referência no setor e tem hoje mais de 70 lojas, começou com os colonizadores portugueses. Mas, com as restrições impostas pela Coroa às manufaturas e à industrialização na colônia, o setor só se desenvolveu mesmo depois da chegada de dom João VI ao Brasil, em 1808. Com a presença da família real e mais liberdade econômica, surgiram fabriquetas de tecidos, que exportavam para outras localidades da Capitania de Minas e para o Rio de Janeiro, que se tornara capital da colônia em 1763. 

Segundo os pesquisadores, a expansão foi tamanha que Resende Costa produziu linho, que era mandado para Buenos Aires, na Argentina. Além das peças mais finas, houve um crescimento de tecidos rústicos de algodão, usados para fazer roupas de escravos e sacaria. Basta circular pela cidade para ver que um universo de cores e padronagens diferenciadas está estampado em cada porta e se mantém cheio de tradição. 

O melhor, no entanto, é conhecer o outro lado desse quadro. Ver, bem de perto, o trabalho dos artesãos – é bom lembrar que há muitos homens e jovens na atividade. Num quartinho dos fundos da casa de Maria Dalva Mendonça Machado, de 72 anos, a labuta começa cedo, em clima de alta produção nos quatro teares. Natural da cidade, casada com o pedreiro aposentado Francisco, com três filhas e quatro netos, dona Dalva, como é mais conhecida, mostra que o tempo e a experiência serviram para lapidar ainda mais a sua técnica. 

Para tudo dar na pequena oficina, foram fundamentais os ensinamentos passados pela mãe, já falecida, que aprendeu com a avó – na cidade, as novas gerações, a exemplo das antigas, vão puxando o fio do conhecimento, fazendo algumas adaptações e recriando a tecelagem no cotidiano. Para manter a aprendizagem em dia, a jovem Ana Paula Ribeiro, de 23, ouve com atenção as dicas da patroa e mestra. O mesmo fizeram as filhas de dona Dalva, Vânia, Silvânia e Giovânia, que sabem todos os segredos dessa trama, que, pelo talento e dedicação demonstrados, vai parecendo um eterno novelo sem fim. 

VIDA DE TRABALHO Despachada, dona Dalva conta que aprendeu a manejar o tear ainda adolescente, quando serviço era o que não faltava na casa paterna. “A nossa vida era só trabalhar. Já chegava da escola e tinha uma roupa para lavar, um balaio de biscoito esperando para a gente vender… Mas trabalho não mata ninguém”, conforta-se a tecelã, que tem uma equipe de quatro jovens sob o seu comando. Numa manhã, das 6h às 10h, cada uma das mulheres pode fazer, com o vaivém das mãos e dos pés, no tear, até 30 tapetinhos. 

Quem vê os corpos em movimentos vigorosos, mas delicados, pode imaginar que, depois de tanto esforço, o artesão estará “moído” no fim do dia. Dona Dalva garante que ninguém reclama de braços ou pernas doendo. “Qualquer um aprende rápido, não há dificuldade, o trabalho vai ficando automático. A gente se acostuma com a prática diária e o negócio acaba virando um divertimento, uma terapia”, explica a artesã, que tem uma loja no Centro de Resende Costa. Portanto, para os iniciantes, não é preciso muita força para mover a engenhoca, “e sim muito jeito”. 

De manhã bem cedo, para começar, dona Dalva separa os novelos de retalhos, depois faz o chamado repasse, que é enfiar os fios de linha no pente (as barras, de madeira, horizontais do tear), e nos liços, que são os arames verticais. Para ela, felicidade, de verdade, é escutar um elogio: “Gosto muito quando dizem que as cores das colchas estão bonitas, vivas, bem escolhidas e que a peça é de qualidade”, revela com um sorriso aberto e franco. 

Depois de uma ligeira parada para o café com biscoito de polvilho, na mesa da cozinha, dona Dalva retorna aos seus afazeres. Sempre de olho em tudo ao seu redor, confere o tear, orienta o trabalho das funcionárias e se volta para o seu mundo, que é tecido com os laços da criatividade e da imaginação. 


RESENDE COSTA
 
Região do Campo das Vertentes 

População: 10,5 mil habitantes 
Fundação: meados do século 18 
Distância de Belo Horizonte: 180 quilômetros 
Distância de São João del-Rei: 36 quilômetros 



1- Até se transformarem em colchas, toalhas e outros produtos, as linhas e novelos de retalhos passam por um longo caminho. A primeira providência da tecelã é fazer a combinação das cores para que o trabalho fique bonito e de bom gosto. A partir daí, ela enrola os fios dos retalhos e dá início ao processo 



2 - Diante do tear, dona Dalva faz o repasse das linhas. Nesta etapa, os fios entram nas “casinhas” dos liços – as peças verticais, com arames, do equipamento – e do pente, o travessão horizontal, de madeira. Feito isso, está tudo pronto para o serviço começar 



3 - Está na hora de tecer. Com movimentos delicados, mas vigorosos, das mãos e dos pés, dona Dalva põe o tear em funcionamento. A cada vaivém do pente, ela passa o novelo de retalhos sob as linhas, formando as tramas 


4 - Depois de tanto trabalho, dá gosto ver a colcha sobre a cama de dona Dalva e as outras peças, já encomendadas, que se avolumam num quartinho. Num trabalho de quatro horas, ela garante que é possível tecer até 30 pequenos tapetes

Um comentário:

  1. Parece tão fácil...
    Legal é vê-la fazer, conversar e ainda brincar com os turistas.

    ResponderExcluir